Dr. Januário de Pardo Mêo Neto, cardiologista e arritmologista
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Condição

Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW)

Uma via elétrica extra de nascença, visível no eletrocardiograma, que provoca crises de taquicardia e pede avaliação de risco individualizada.


A síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) é uma condição de nascença em que existe uma via elétrica extra, chamada via acessória, ligando os átrios aos ventrículos. Essa conexão adicional pode causar crises de taquicardia e aparece de forma característica no eletrocardiograma. Na maioria dos casos, tem tratamento definitivo pela ablação.

O que acontece no coração

Normalmente, o único caminho elétrico entre átrios e ventrículos é o nó atrioventricular, que funciona como um portão que controla a passagem dos estímulos. Em quem tem Wolff-Parkinson-White, existe uma via acessória paralela, um atalho que escapa desse controle.

Esse atalho tem duas consequências. A primeira é a pré-excitação: parte do ventrículo é ativada mais cedo, o que deixa uma marca típica no eletrocardiograma em repouso. A segunda é a possibilidade de o estímulo girar em círculo entre o nó e a via acessória, gerando crises de taquicardia paroxística supraventricular (TPSV).

Existe ainda uma preocupação específica: se a pessoa desenvolver fibrilação atrial, uma via acessória capaz de conduzir muito rápido pode transmitir esses estímulos aos ventrículos em alta frequência. É um cenário raro, mas é o motivo pelo qual a avaliação de risco importa e pelo qual não trato toda pré-excitação como igual.

Vale um esclarecimento de termos. Quando existe o padrão no eletrocardiograma e também crises de taquicardia, falamos em síndrome de Wolff-Parkinson-White. Quando há apenas o padrão no traçado, sem sintomas, falamos em pré-excitação ou padrão de Wolff-Parkinson-White. Essa distinção não é preciosismo: ela orienta a conduta e a urgência da avaliação.

Sintomas e sinais de alerta

  • Crises de palpitação rápida, de início e fim súbitos
  • Sensação de coração disparado, às vezes com tontura
  • Falta de ar e mal-estar durante as crises
  • Desmaio durante a crise, sinal que investigo com prioridade
  • Achado do padrão no eletrocardiograma, mesmo sem sintomas

Um ponto merece destaque: quando o padrão de Wolff-Parkinson-White aparece no eletrocardiograma de alguém sem sintomas, isso não deve ser ignorado, sobretudo em jovens e atletas. A avaliação define se a via é de baixo ou de alto risco.

Entre os sinais que aumentam a minha preocupação estão o desmaio durante uma crise, crises muito rápidas e mal toleradas, e a combinação de pré-excitação com esporte de alto rendimento. Nesses contextos, antecipo a investigação. Já o desaparecimento da pré-excitação durante o esforço costuma ser um indício tranquilizador, embora nunca interprete um achado isolado fora do quadro completo.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico começa no eletrocardiograma e se aprofunda conforme o caso:

  1. Eletrocardiograma em repouso: mostra o padrão de pré-excitação típico da via acessória, muitas vezes o primeiro sinal da condição.
  2. Holter e teste ergométrico: ajudam a observar o comportamento da via ao longo do dia e no esforço. O desaparecimento súbito da pré-excitação com o exercício sugere uma via de menor risco, embora não substitua a avaliação direta.
  3. Estudo eletrofisiológico: é o exame que mede diretamente o risco da via acessória e localiza sua posição, sendo também o momento do tratamento.

O estudo eletrofisiológico é a ferramenta mais precisa para estratificar o risco, especialmente quando o eletrocardiograma e os exames não invasivos deixam dúvidas. Ele avalia com que rapidez a via acessória consegue conduzir os estímulos, informação que distingue diretamente as vias de baixo risco das de alto risco.

Opções de tratamento

O tratamento é guiado pelos sintomas e pelo risco estimado da via acessória:

Acompanhamento e avaliação de risco. Em pré-excitação assintomática de baixo risco, o acompanhamento pode ser uma opção, sempre com orientação clara sobre sinais de alerta e sobre quando reavaliar.

Medicação. Em alguns pacientes, remédios ajudam a controlar as crises, mas não eliminam a via acessória, ou seja, não resolvem a origem do problema.

Tratamento invasivo. A ablação por cateter da via acessória, guiada pelo estudo eletrofisiológico, trata a origem do problema. É resolutiva na grande maioria dos casos e é realizada por eletrofisiologista invasivo.

A lógica de escolha é clara. Diante de crises sintomáticas ou de uma via de alto risco, a ablação costuma ser o caminho, porque trata a causa de forma definitiva. Em uma via de baixo risco e sem sintomas, discuto com calma os prós e contras entre tratar e acompanhar, respeitando o contexto de vida da pessoa. Segundo a diretriz europeia de 2019, a literatura descreve sucesso da ablação de vias acessórias acima de 90%, com variação conforme a localização da via. É um dado de literatura, não uma promessa de resultado individual, mas pesa a favor de resolver o problema quando há indicação.

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Diagnóstico de Wolff-Parkinson-White, com ou sem sintomas?

A avaliação de risco define a conduta e, quando indicada, a ablação costuma resolver o quadro de forma definitiva. Envie sua mensagem para a equipe.

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Por que a avaliação de risco é tão importante

Wolff-Parkinson-White reúne dois perfis muito diferentes sob o mesmo nome. A maioria tem crises incômodas, mas de baixo risco. Uma minoria tem uma via capaz de conduzir estímulos perigosamente rápidos.

Meu papel é distinguir esses perfis com precisão, principalmente em crianças, adolescentes e atletas. O estudo eletrofisiológico é o exame que permite essa distinção de forma direta, e no mesmo procedimento é possível tratar a via quando indicado. Essa possibilidade de avaliar e tratar em um só tempo é uma das razões pelas quais a condução dos casos costuma ser objetiva.

O que costumo ouvir no consultório

Uma parte importante dos meus pacientes com Wolff-Parkinson-White descobriu a condição por acaso, em um eletrocardiograma de rotina, de check-up ou de avaliação para esporte. O susto de receber um diagnóstico sem sentir nada é grande, e a primeira conversa é sobre o que aquele achado significa de verdade.

Pais de crianças e adolescentes chegam especialmente ansiosos, muitas vezes preocupados com a liberação para o esporte. Acolho essa preocupação e explico o papel da avaliação de risco, que existe justamente para dar uma resposta fundamentada, e não um "pode" ou "não pode" sem base.

Também é comum a pergunta sobre definitividade: as pessoas querem saber se vão conviver com isso para sempre. Poder explicar que existe um tratamento com intenção resolutiva, guiado por um exame que ao mesmo tempo mede o risco e trata a via, costuma transformar a angústia inicial em um plano concreto.

Quando a ablação é indicada

Considero a ablação da via acessória nos seguintes cenários:

  • Crises de taquicardia recorrentes ou muito sintomáticas
  • Via acessória com sinais de alto risco na avaliação
  • Atletas e profissionais em atividades sensíveis a uma crise súbita
  • Preferência do paciente por uma solução definitiva, após avaliação

A decisão é sempre individual e compartilhada. Explico o procedimento, os riscos e a recuperação na página de estudo eletrofisiológico, que costuma ser o mesmo momento da ablação.

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns

Wolff-Parkinson-White é perigoso?

Na maioria das pessoas, as crises comprometem a qualidade de vida, mas não a colocam em risco. Existe, porém, um grupo com via acessória capaz de conduzir estímulos muito rápidos, associado a um risco raro de arritmia grave. Por isso a avaliação de risco é fundamental.

Descobri no eletrocardiograma, mas não sinto nada. Preciso tratar?

Quando existe o padrão no eletrocardiograma sem sintomas, chamamos de pré-excitação assintomática. Nem todos precisam de tratamento imediato, mas recomendo a avaliação de risco, sobretudo em jovens e atletas, para definir se a via acessória é de baixo ou alto risco.

A ablação resolve o Wolff-Parkinson-White?

A ablação da via acessória é resolutiva na grande maioria dos casos e elimina a origem das crises. É o tratamento definitivo mais estabelecido para essa condição, feito por eletrofisiologista invasivo e guiado pelo estudo eletrofisiológico.

Meu filho tem Wolff-Parkinson-White. O que fazer?

Crianças e adolescentes com esse diagnóstico devem ser avaliados por especialista em arritmia, com atenção especial em quem pratica esporte competitivo. A conduta é individualizada e leva em conta sintomas, idade e o risco estimado da via acessória.

Posso praticar esporte com Wolff-Parkinson-White?

Depende da avaliação de risco. Atletas e praticantes de esporte de alta intensidade merecem estratificação cuidadosa, porque a via acessória de alto risco tem relevância nesse contexto. Em muitos casos, a ablação libera a prática esportiva com segurança após o tratamento.

Referências

Fontes científicas

  1. Diretriz 2019 da ESC para o manejo de pacientes com taquicardia paroxística supraventricular (TPSV)
  2. SOBRAC, Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas

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