Dr. Januário de Pardo Mêo Neto, cardiologista e arritmologista
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Referência

Glossário de arritmologia

Os termos que você vai ouvir em consultas, exames e laudos, explicados na linguagem que uso com meus pacientes.


Este glossário reúne os 36 termos que meus pacientes mais encontram em consultas, laudos de exames e conversas sobre tratamento. Cada definição é curta, autocontida e escrita na linguagem que uso no consultório, revisada por mim, eletrofisiologista invasivo com formação pela USP.

Guarde esta página: ela ajuda a entender laudos de Holter e ecocardiograma, relatórios de procedimento e as próprias páginas deste site. Os termos em ordem alfabética:

Ablação por cateter
Procedimento que trata arritmias pela cauterização ou modificação do tecido cardíaco responsável pelo circuito elétrico anormal. É feito por cateteres levados ao coração pela veia femoral, sem corte no tórax, por um eletrofisiologista invasivo.
Ablação por campo pulsado (PFA, pulsed field ablation)
Técnica de ablação, também chamada de eletroporação, que usa pulsos elétricos ultracurtos, não térmicos, para tratar o tecido causador da arritmia. PFA é a sigla do inglês pulsed field ablation, já corrente no Brasil. Por afetar preferencialmente as células do coração, tende a poupar estruturas vizinhas, como o esôfago e o nervo frênico.
Anticoagulante
Medicação que reduz a capacidade do sangue de formar coágulos. Na fibrilação atrial, é a principal ferramenta de prevenção do AVC, e sua indicação depende do perfil de risco calculado em consulta, não da intensidade dos sintomas.
Apêndice atrial esquerdo
Pequena bolsa anatômica do átrio esquerdo onde se forma a maioria dos coágulos associados à fibrilação atrial. Em pacientes selecionados que não podem usar anticoagulante, pode ser fechado por cateter com uma prótese oclusora.
Arritmia cardíaca
Qualquer alteração do ritmo dos batimentos do coração, seja por aceleração, lentidão ou irregularidade. Existem formas benignas e formas que exigem tratamento, e a distinção é feita por avaliação especializada com registro elétrico.
Átrios
As duas câmaras superiores do coração, que recebem o sangue e o encaminham aos ventrículos. São o palco das arritmias supraventriculares mais comuns, como a fibrilação atrial e o flutter atrial.
Bradicardia
Ritmo cardíaco mais lento que o esperado, em geral abaixo de 50 batimentos por minuto. Pode ser normal em atletas e durante o sono, mas, quando causa sintomas como tontura e desmaio, exige investigação e, em alguns casos, marcapasso.
Cardioversão elétrica
Procedimento que restaura o ritmo normal do coração por meio de um choque elétrico sincronizado, aplicado sob sedação. Interrompe o episódio de arritmia, mas não trata a causa, por isso costuma fazer parte de uma estratégia maior.
CDI (cardioversor desfibrilador implantável)
Dispositivo implantado sob a pele que monitora o ritmo cardíaco continuamente e trata arritmias ventriculares graves com estímulos ou choques. É indicado para pacientes com risco aumentado de morte súbita cardíaca.
Crioablação
Modalidade de ablação que usa congelamento para tratar o tecido responsável pela arritmia. Na fibrilação atrial, é aplicada com um balão que isola as veias pulmonares por frio, alternativa à radiofrequência em casos selecionados.
Ecocardiograma
Ultrassom do coração que avalia o tamanho das câmaras, a força de contração e as válvulas. Na arritmologia, informa dados decisivos, como o tamanho do átrio esquerdo, que pesa na escolha do tratamento da fibrilação atrial.
Ecocardiograma intracardíaco (ICE)
Ultrassom feito por um cateter posicionado dentro do próprio coração. Mostra em tempo real as paredes, as veias, o septo entre os átrios e o contato do cateter de ablação com o tecido. Em conjunto com o mapeamento tridimensional, permite realizar a ablação com pouca ou nenhuma radiação.
Eletrocardiograma (ECG)
Registro da atividade elétrica do coração por eletrodos na pele. É o exame que documenta a arritmia quando ela acontece durante o registro, e a base de todo diagnóstico em arritmologia.
Eletrofisiologista
Cardiologista com formação adicional dedicada ao sistema elétrico do coração. É a subespecialidade que realiza o estudo eletrofisiológico e a ablação por cateter, além de indicar e acompanhar marcapassos e desfibriladores.
Estudo eletrofisiológico
Exame invasivo em que cateteres posicionados dentro do coração mapeiam seu sistema elétrico, reproduzem a arritmia em ambiente controlado e localizam sua origem. Frequentemente é seguido de ablação no mesmo procedimento.
Extrassístole
Batimento que ocorre fora de hora, percebido como falha ou batida forte. É achado comum e, na maioria das pessoas, benigno. Merece investigação quando é muito frequente, quando há cardiopatia ou quando causa sintomas importantes.
Fibrilação atrial
Arritmia sustentada mais comum, na qual os átrios perdem a contração organizada e passam a tremer de forma caótica. Gera batimentos irregulares, aumenta o risco de AVC e pode enfraquecer o coração quando não tratada.
Flutter atrial
Arritmia em que um circuito elétrico gira de forma organizada dentro do átrio, em geral o direito, produzindo frequências atriais próximas de 300 por minuto. A forma típica tem tratamento por ablação com alta taxa de êxito.
Fluoroscopia
Uso de raios X em tempo real para visualizar os cateteres durante procedimentos cardíacos. Com os sistemas de mapeamento eletroanatômico atuais, a dose de radiação pode ser reduzida ao mínimo e, em casos selecionados, chegar a zero.
Holter
Gravador portátil que registra o eletrocardiograma continuamente por 24 horas ou mais durante a rotina normal do paciente. Serve para documentar arritmias que não aparecem no ECG de repouso e medir a carga de extrassístoles.
Isolamento das veias pulmonares
Objetivo central da ablação de fibrilação atrial: criar barreiras elétricas ao redor das veias pulmonares, onde nascem os gatilhos da arritmia, impedindo que seus disparos alcancem e desorganizem o restante do átrio esquerdo.
Mapeamento eletroanatômico 3D
Tecnologia que reconstrói as câmaras do coração em um modelo tridimensional e mostra a posição dos cateteres em tempo real, sem depender de raios X. Aumenta a precisão da ablação e permite reduzir a radiação a quase zero.
Marcapasso
Dispositivo implantado que estimula o coração quando o ritmo próprio fica lento demais. Trata bradicardias sintomáticas e bloqueios da condução elétrica. Não é o tratamento da fibrilação atrial em si, embora possa complementar estratégias.
Monitor de eventos (looper)
Dispositivo que registra o ritmo cardíaco por períodos longos, de semanas a anos, para capturar arritmias esparsas que escapam do Holter. Pode ser externo ou implantável sob a pele, e é útil na investigação de síncope e palpitações raras.
Palpitação
Percepção incômoda dos próprios batimentos, descrita como coração acelerado, forte ou fora de ritmo. É sintoma, não diagnóstico: pode vir de arritmias, mas também de ansiedade, febre, anemia ou estimulantes. O registro elétrico decide.
Pré-excitação ventricular
Padrão de eletrocardiograma em que os ventrículos são ativados mais cedo que o normal por uma via acessória. É a marca elétrica da síndrome de Wolff-Parkinson-White e pede avaliação com eletrofisiologista para estimar o risco.
Radiofrequência
Energia térmica usada na forma mais estabelecida de ablação por cateter. A ponta do cateter aquece o ponto exato do tecido responsável pela arritmia, criando uma pequena cicatriz controlada que interrompe o circuito elétrico anormal.
Reentrada
Mecanismo em que o impulso elétrico fica girando em círculo dentro do coração, em vez de seguir seu caminho normal e se extinguir. É a base da maioria das taquicardias supraventriculares e do flutter atrial, e por isso responde bem à ablação.
Ritmo sinusal
O ritmo normal do coração, comandado pelo nó sinusal, o marcapasso natural situado no átrio direito. Restaurar e manter o ritmo sinusal é o objetivo das estratégias de controle de ritmo na fibrilação atrial.
Síncope
Perda transitória da consciência com recuperação espontânea, o desmaio. Tem causas benignas frequentes, como a síncope vasovagal, mas pode indicar arritmia grave, sobretudo quando ocorre durante esforço ou sem qualquer aviso.
Taquicardia
Ritmo cardíaco acelerado, em geral acima de 100 batimentos por minuto. Pode ser resposta normal a esforço e emoção ou manifestação de arritmia. O padrão de início e término, súbito ou gradual, é pista importante para o diagnóstico.
Taquicardia paroxística supraventricular (TPSV)
Grupo de arritmias com origem acima dos ventrículos que causam crises de coração disparado com início e fim súbitos, frequentes em pessoas jovens e saudáveis. Nas formas por reentrada, a ablação é resolutiva na grande maioria dos casos. Também aparece em laudos como taquicardia supraventricular (TSV).
Taquicardia ventricular (TV)
Arritmia originada nos ventrículos, as câmaras que bombeiam o sangue. Quando associada a doença estrutural do coração, é potencialmente grave e exige estratificação de risco. Existem também formas idiopáticas de comportamento benigno.
Taquicardiomiopatia
Enfraquecimento do músculo cardíaco causado por uma arritmia persistente ou por extrassístoles muito frequentes. É uma das situações em que tratar a arritmia, muitas vezes por ablação, pode recuperar a função do coração.
Veias pulmonares
As quatro veias que trazem o sangue oxigenado dos pulmões ao átrio esquerdo. Na maioria dos pacientes, é na desembocadura delas que nascem os disparos elétricos que iniciam a fibrilação atrial, por isso são o alvo central da ablação.
Via acessória
Conexão elétrica extra entre átrios e ventrículos, presente desde o nascimento, que cria um atalho fora do sistema de condução normal. Pode sustentar taquicardias por reentrada e caracteriza a síndrome de Wolff-Parkinson-White.
Wolff-Parkinson-White (WPW)
Síndrome congênita em que uma via acessória conecta átrios e ventrículos, produzindo pré-excitação no eletrocardiograma e crises de taquicardia. A ablação da via acessória é o tratamento definitivo mais estabelecido para a síndrome. WPW é a sigla usada em laudos e na literatura.

Como usar este glossário

Definição é começo de conversa, não fim. Se um destes termos apareceu em um laudo seu ou em uma recomendação médica, o contexto do seu caso é o que dá o significado final. As páginas de fibrilação atrial, palpitações e ablação por cateter aprofundam os temas mais procurados.

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