Dr. Januário de Pardo Mêo Neto, cardiologista e arritmologista
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Procedimento

Ablação de fibrilação atrial

O isolamento das veias pulmonares explicado sem promessas: quando indico, como funciona e o que é realista esperar do resultado.


A ablação de fibrilação atrial é o procedimento que isola eletricamente as veias pulmonares, região onde nasce a maior parte dos disparos que desencadeiam a arritmia. Por cateteres introduzidos por uma veia da virilha, crio uma barreira ao redor dessas veias, impedindo que os focos anormais se espalhem pelo átrio e desorganizem o ritmo do coração.

Por que as veias pulmonares

Na fibrilação atrial, focos elétricos ao redor das veias pulmonares disparam de forma desorganizada e contaminam todo o átrio esquerdo. O princípio da ablação é isolar essas veias: uma vez cercadas eletricamente, os disparos ficam contidos e não conseguem mais provocar a arritmia. Esse isolamento das veias pulmonares é a base do procedimento em praticamente todos os casos.

Em pacientes com formas mais avançadas, além do isolamento das veias, pode ser necessário tratar outras áreas do átrio que passaram a sustentar a arritmia. Isso é definido durante o procedimento, com o mapeamento do átrio.

Quando eu indico

A indicação nasce de uma avaliação individual. Os cenários mais comuns no meu consultório:

  • Sintomas que persistem apesar da medicação antiarrítmica
  • Efeitos colaterais dos remédios ou o desejo fundamentado de não depender deles por décadas
  • Fibrilação atrial que enfraquece o coração (taquicardiomiopatia)
  • Pacientes jovens com forma paroxística, nos quais tratar cedo muda a evolução da doença

A diretriz europeia de cardiologia de 2024 reforçou a ablação como opção de primeira linha em situações específicas, e não apenas como último recurso depois de falharem todos os remédios.

Paroxística e persistente: expectativas diferentes

O tipo de fibrilação atrial muda bastante o que se pode esperar:

  • Paroxística: os episódios começam e terminam sozinhos. O átrio costuma estar preservado e a resposta ao isolamento das veias pulmonares tende a ser a melhor.
  • Persistente: a arritmia se mantém até uma intervenção. O átrio já pode ter sofrido remodelamento, o procedimento tende a ser mais extenso e a expectativa de resultado é diferente.
  • Persistente de longa data: anos em fibrilação alteram profundamente o átrio, o que reduz as chances e às vezes torna a ablação menos indicada.

Por isso a mesma pergunta, "qual a chance de dar certo", tem respostas diferentes para pessoas diferentes. Explico a sua estimativa na consulta, com base nos seus exames.

Próximo passo

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Como o procedimento é feito, passo a passo

  1. Preparo. Jejum, exames pré-procedimento revisados e ajuste da medicação, sempre orientado por escrito. Faço de rotina um ecocardiograma para afastar coágulos no átrio: o exame pode ser realizado próximo à data do procedimento ou, em alguns casos, já na sala, no início do procedimento.
  2. Anestesia. Sedação profunda ou anestesia geral. Você não sente dor e não guarda memória do procedimento.
  3. Acesso. Punção da veia femoral, na virilha, por onde conduzo os cateteres até o coração. Para chegar ao átrio esquerdo, faço uma passagem controlada entre os átrios.
  4. Mapeamento. Construo um mapa tridimensional do átrio esquerdo e das veias pulmonares com o sistema de mapeamento eletroanatômico.
  5. Isolamento. Aplico a energia ao redor das veias pulmonares até confirmar que estão eletricamente isoladas.
  6. Verificação e alta. Testo o resultado e, após o repouso, a alta é no dia seguinte.

A energia pode ser radiofrequência, crioablação ou o campo pulsado (PFA), tecnologia mais recente que descrevo em ablação por campo pulsado.

Riscos, radiação e a experiência de quem opera

Energia utilizada. As energias térmicas (radiofrequência e crioablação) exigem atenção com estruturas próximas ao átrio, como o esôfago e o nervo frênico. O campo pulsado não utiliza calor nem frio, e seu mecanismo de ação tende a poupar essas estruturas. A escolha é individual.

Exposição à radiação. Uso o mapeamento tridimensional e o ecocardiograma intracardíaco para reduzir a dose de raios-X: com os dois recursos, é possível trabalhar com zero fluoroscopia ou com doses muito baixas. Isso é especialmente relevante em pacientes jovens e mulheres em idade fértil. Detalho em ablação sem radiação.

O volume do operador importa. A ablação de fibrilação atrial é um dos procedimentos em que a experiência do médico mais influencia o resultado e a segurança. Pergunte a qualquer especialista quantos procedimentos desse tipo ele realiza por ano.

Conduta em caso de recorrência. As veias podem reconectar e a arritmia voltar. Nesses casos, avalio um segundo procedimento, que costuma consolidar o resultado. Trato isso como parte possível da estratégia, combinada antes da ablação, e não como um imprevisto.

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Resultados esperados

Em fibrilação atrial paroxística, a ablação mantém boa parte dos pacientes livre da arritmia por períodos prolongados, com melhor resultado quando o tratamento é precoce. Na forma persistente, os números são mais modestos e a estratégia pode envolver mais de um procedimento.

Não trabalho com promessa de cura. Meu compromisso é uma indicação criteriosa, a explicação honesta do que esperar e o acompanhamento depois. Se quiser se preparar para a conversa, veja as perguntas a fazer antes de uma ablação.

Atendo em São Paulo e em Campinas. Se você tem plano com livre escolha, a página de reembolso assistido explica o processo.

Dr. Januário de máscara e avental de chumbo diante da tela com o mapa eletroanatômico tridimensional
Durante uma ablação de fibrilação atrial: o mapa eletroanatômico tridimensional guia cada aplicação de energia, marcada por um ponto colorido.

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns

A ablação cura a fibrilação atrial?

Não existe garantia de cura para todos. A ablação oferece controle duradouro do ritmo em pacientes bem selecionados, e parte deles precisa de um segundo procedimento ou de medicação complementar. O resultado depende do tipo de fibrilação e do tempo de doença.

Qual a diferença entre fibrilação paroxística e persistente na ablação?

Na forma paroxística, os episódios terminam sozinhos e a resposta à ablação costuma ser melhor. Na persistente, sobretudo de longa data, o átrio já sofreu alterações e o procedimento tende a ser mais extenso, com expectativa de resultado diferente.

Por que algumas pessoas precisam de duas ablações?

As veias pulmonares podem reconectar eletricamente com o tempo, e a fibrilação volta. Um segundo procedimento consolida o isolamento e trata novos focos. Isso faz parte da estratégia em parte dos casos, e não representa uma falha do primeiro procedimento.

Vou poder parar o anticoagulante depois da ablação?

Nem sempre. A necessidade de anticoagulação depende do seu risco individual de AVC, e não apenas de estar sem sintomas. Em muitos pacientes, o anticoagulante é mantido mesmo após uma ablação bem-sucedida. Essa decisão é sempre individual.

Quanto tempo depois volto às atividades?

A alta é no dia seguinte ao procedimento. Oriento repouso relativo por cerca de uma semana; depois disso, a maioria volta às atividades de rotina, inclusive ao trabalho. A atividade física é liberada na consulta de retorno, em geral após 30 dias. Palpitações leves nas primeiras semanas podem fazer parte da cicatrização. Você recebe orientações por escrito e acompanhamento.

Referências

Fontes científicas

  1. Diretriz 2024 da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) para o manejo da fibrilação atrial
  2. Consenso 2024 EHRA/HRS/APHRS/LAHRS sobre ablação por cateter e cirúrgica da fibrilação atrial
  3. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial (SOBRAC, 2025)

Laudo digital: o resultado deste procedimento fica disponível online, com acesso seguro para você e para o médico que solicitou o seu caso. Saiba como acessar seu laudo.

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