Procedimento
Ablação de fibrilação atrial
A ablação de fibrilação atrial é o procedimento que isola eletricamente as veias pulmonares, região onde nasce a maior parte dos disparos que desencadeiam a arritmia. Por cateteres introduzidos por uma veia da virilha, crio uma barreira ao redor dessas veias, impedindo que os focos anormais se espalhem pelo átrio e desorganizem o ritmo do coração.
Por que as veias pulmonares
Na fibrilação atrial, focos elétricos ao redor das veias pulmonares disparam de forma desorganizada e contaminam todo o átrio esquerdo. O princípio da ablação é isolar essas veias: uma vez cercadas eletricamente, os disparos ficam contidos e não conseguem mais provocar a arritmia. Esse isolamento das veias pulmonares é a base do procedimento em praticamente todos os casos.
Em pacientes com formas mais avançadas, além do isolamento das veias, pode ser necessário tratar outras áreas do átrio que passaram a sustentar a arritmia. Isso é definido durante o procedimento, com o mapeamento do átrio.
Quando eu indico
A indicação nasce de uma avaliação individual. Os cenários mais comuns no meu consultório:
- Sintomas que persistem apesar da medicação antiarrítmica
- Efeitos colaterais dos remédios ou o desejo fundamentado de não depender deles por décadas
- Fibrilação atrial que enfraquece o coração (taquicardiomiopatia)
- Pacientes jovens com forma paroxística, nos quais tratar cedo muda a evolução da doença
A diretriz europeia de cardiologia de 2024 reforçou a ablação como opção de primeira linha em situações específicas, e não apenas como último recurso depois de falharem todos os remédios.
Paroxística e persistente: expectativas diferentes
O tipo de fibrilação atrial muda bastante o que se pode esperar:
- Paroxística: os episódios começam e terminam sozinhos. O átrio costuma estar preservado e a resposta ao isolamento das veias pulmonares tende a ser a melhor.
- Persistente: a arritmia se mantém até uma intervenção. O átrio já pode ter sofrido remodelamento, o procedimento tende a ser mais extenso e a expectativa de resultado é diferente.
- Persistente de longa data: anos em fibrilação alteram profundamente o átrio, o que reduz as chances e às vezes torna a ablação menos indicada.
Por isso a mesma pergunta, "qual a chance de dar certo", tem respostas diferentes para pessoas diferentes. Explico a sua estimativa na consulta, com base nos seus exames.
Próximo passo
Está decidindo sobre uma ablação de fibrilação atrial?
Como o procedimento é feito, passo a passo
- Preparo. Jejum, exames pré-procedimento revisados e ajuste da medicação, sempre orientado por escrito. Faço de rotina um ecocardiograma para afastar coágulos no átrio: o exame pode ser realizado próximo à data do procedimento ou, em alguns casos, já na sala, no início do procedimento.
- Anestesia. Sedação profunda ou anestesia geral. Você não sente dor e não guarda memória do procedimento.
- Acesso. Punção da veia femoral, na virilha, por onde conduzo os cateteres até o coração. Para chegar ao átrio esquerdo, faço uma passagem controlada entre os átrios.
- Mapeamento. Construo um mapa tridimensional do átrio esquerdo e das veias pulmonares com o sistema de mapeamento eletroanatômico.
- Isolamento. Aplico a energia ao redor das veias pulmonares até confirmar que estão eletricamente isoladas.
- Verificação e alta. Testo o resultado e, após o repouso, a alta é no dia seguinte.
A energia pode ser radiofrequência, crioablação ou o campo pulsado (PFA), tecnologia mais recente que descrevo em ablação por campo pulsado.
Riscos, radiação e a experiência de quem opera
Energia utilizada. As energias térmicas (radiofrequência e crioablação) exigem atenção com estruturas próximas ao átrio, como o esôfago e o nervo frênico. O campo pulsado não utiliza calor nem frio, e seu mecanismo de ação tende a poupar essas estruturas. A escolha é individual.
Exposição à radiação. Uso o mapeamento tridimensional e o ecocardiograma intracardíaco para reduzir a dose de raios-X: com os dois recursos, é possível trabalhar com zero fluoroscopia ou com doses muito baixas. Isso é especialmente relevante em pacientes jovens e mulheres em idade fértil. Detalho em ablação sem radiação.
O volume do operador importa. A ablação de fibrilação atrial é um dos procedimentos em que a experiência do médico mais influencia o resultado e a segurança. Pergunte a qualquer especialista quantos procedimentos desse tipo ele realiza por ano.
Conduta em caso de recorrência. As veias podem reconectar e a arritmia voltar. Nesses casos, avalio um segundo procedimento, que costuma consolidar o resultado. Trato isso como parte possível da estratégia, combinada antes da ablação, e não como um imprevisto.
Mini-triagem · três perguntas, nada é armazenado
Resultados esperados
Em fibrilação atrial paroxística, a ablação mantém boa parte dos pacientes livre da arritmia por períodos prolongados, com melhor resultado quando o tratamento é precoce. Na forma persistente, os números são mais modestos e a estratégia pode envolver mais de um procedimento.
Não trabalho com promessa de cura. Meu compromisso é uma indicação criteriosa, a explicação honesta do que esperar e o acompanhamento depois. Se quiser se preparar para a conversa, veja as perguntas a fazer antes de uma ablação.
Atendo em São Paulo e em Campinas. Se você tem plano com livre escolha, a página de reembolso assistido explica o processo.

Perguntas frequentes
Dúvidas comuns
A ablação cura a fibrilação atrial?
Não existe garantia de cura para todos. A ablação oferece controle duradouro do ritmo em pacientes bem selecionados, e parte deles precisa de um segundo procedimento ou de medicação complementar. O resultado depende do tipo de fibrilação e do tempo de doença.
Qual a diferença entre fibrilação paroxística e persistente na ablação?
Na forma paroxística, os episódios terminam sozinhos e a resposta à ablação costuma ser melhor. Na persistente, sobretudo de longa data, o átrio já sofreu alterações e o procedimento tende a ser mais extenso, com expectativa de resultado diferente.
Por que algumas pessoas precisam de duas ablações?
As veias pulmonares podem reconectar eletricamente com o tempo, e a fibrilação volta. Um segundo procedimento consolida o isolamento e trata novos focos. Isso faz parte da estratégia em parte dos casos, e não representa uma falha do primeiro procedimento.
Vou poder parar o anticoagulante depois da ablação?
Nem sempre. A necessidade de anticoagulação depende do seu risco individual de AVC, e não apenas de estar sem sintomas. Em muitos pacientes, o anticoagulante é mantido mesmo após uma ablação bem-sucedida. Essa decisão é sempre individual.
Quanto tempo depois volto às atividades?
A alta é no dia seguinte ao procedimento. Oriento repouso relativo por cerca de uma semana; depois disso, a maioria volta às atividades de rotina, inclusive ao trabalho. A atividade física é liberada na consulta de retorno, em geral após 30 dias. Palpitações leves nas primeiras semanas podem fazer parte da cicatrização. Você recebe orientações por escrito e acompanhamento.
Referências
Fontes científicas
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